Pr. Verner Gilberto Musenek
Nesta semana que passou, na segunda-feira, ao fazer uma rara caminhada em final de tarde, notei uma cena um tanto curiosa que pode trazer muitas lições. Na avenida Ampélio Gazzeta, sentido Nova Odessa-Americana, no bairro industrial, um veículo sai de uma empresa e diretamente corta o canteiro que há entre as duas pistas, atravessando para o outro lado. Mesmo tendo um retorno alguns metros à frente, o atalho parece mais prático. Notei que já há um caminho marcado, evidenciando que todos os dias acontece a mesma coisa – não só por aquele motorista, mas, com certeza, por outros funcionários que trabalham naquela empresa.
É o conveniente. O atalho acabou sendo a opção mais conveniente. Mesmo correndo o risco de ser advertido por algum policial, parece ser vantajoso cortar o caminho por onde não há caminho e economizar alguns segundos ou um pouco de combustível.
Obviamente que, no dia a dia, algumas atitudes mais convenientes devem ser tomadas e praticadas. Em diversas áreas, é importante pensar em métodos e práticas que apresentem um bom resultado sem correr riscos, prejudicar ninguém ou infringir alguma lei. Mas é preciso o equilíbrio e bom senso.Muitas vezes as conveniências nos atraem. E atraem também para o que é errado. Não citando regras de trânsito ou como se comportar como um bom motorista, mas no âmbito espiritual, como pessoas que temem a Deus. É triste, mas muitas vezes notamos que cristãos se afastam do padrão de conduta ensinado pela Bíblia e buscam os atalhos. Buscam as conveniências. A cada dia que passa notamos que a igreja tem se assemelhado com facilidade à forma de vida que o mundo ensina. Quando o apóstolo Paulo, em Romanos 12.1 fala que não devemos “tomar forma” ou “se assemelhar” a este mundo, ele estava ensinando que as conveniências na vida espiritual não devem ser aceitas.
Todos conhecemos a história de Daniel. Poderia ser muito mais conveniente para ele e seus amigos obedecerem ao rei Nabucodonozor. Poderiam comer e beber a vontade, pois estavam em terra estranha e em meio a muita gente. Ninguém iria perceber se cedessem a algumas conveniências. Poderiam pensar que seria muito mais fácil se envolver com comidas impuras e se curvar só por alguns instantes perante a estátua do que contrariar o rei e serem lançados à fornalha ou na cova dos leões. Mas é brilhante quando a Bíblia fala sobre a decisão do jovem Daniel: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia”(Dn 1.8).
O mesmo acontece com o conhecido Neemias. Chegando a Jerusalém, terra de seus antepassados, foi maravilhosamente usado por Deus para liderar o povo na reconstrução dos muros. Todos os trabalhadores reconheceram sua missão e ficaram cheios de esperança. Neemias, por direito, poderia ter atitudes autoritárias, regalias e tratamento especial à semelhança de outros que anteriormente administraram a cidade. Poderia ser melhor e mais conveniente se servir dos privilégios. Até mais fácil. Mas não era líder por acaso. Declarou: “Mas os primeiros governadores, que foram antes de mim, oprimiram o povo e lhe tomaram pão e vinho, além de quarenta siclos de prata; até os seus moços dominavam sobre o povo, porém eu assim não fiz, por causa do temor de Deus” (Ne 5.15). Eis alguém que não optou pelo conveniente, mas pelo que seu coração dizia o que era correto.
É lamentável quando os cristãos buscam conveniências ou facilidades na vida espiritual. Ou até mesmo na vida prática. Não freqüentar os cultos, não orar, não ler a Palavra de Deus, não cantar – parece ser mais conveniente do que praticar tudo isto. Para outros parece ser mais fácil ou prático se envolver naturalmente com bebidas alcoólicas e reagir como se fosse normal. Parece também ser mais prático criticar do que ajudar. Ou se envolver menos com as responsabilidades da igreja. Talvez pareça ser mais conveniente ficar só olhando enquanto outros limpam as mesas ou lavam louça na cozinha. Ou usar uma roupa imprópria para um momento de culto. É bem provável que haja cobrança de um comportamento exemplar das crianças que chegam até a igreja, mas é mais conveniente não sentar com elas durante o culto ou não orienta-las…
À todos nós (incluo-me nesta reflexão): que o Senhor nos livre das más conveniências. Que em dias de tanta facilidade ensinada na esfera espiritual, haja consciência de agirmos como Daniel, Neemias e tantos outros. Mediante o conveniente, que possamos agradar a Deus.
Não atravesse o canteiro. Não busque certos atalhos. Não vá pelo “mais fácil”. Àquele que morreu na cruz por amor: a honra, glória e louvor. A honra – com a vida, e sem as conveniências.